A minha vida em flores

Representar a minha vida em 8 painéis / 8 setênios (ciclos de 7 anos), num total de mais de 1300 flores de lã.

Foi este o meu grande desafio durante a pandemia 2020-2021… e como foi transformador!

Inocência e Harmonia

1º Setênio 0-7 anos

O meu nome é Maria do Carmo e nasci em Cascais, no final de um dia de setembro de 1963, já verão acabado e sob o signo de balança, auspiciando uma vida vocacionada á beleza e á arte, aos relacionamentos, aos recomeços, á empatia e alegria de viver.

Logo aos 6 meses a minha mãe começou a tratar-me por “Tumtum”, nome que adoro porque lembra o bater do coração.

Fui a última de 4 filhos, nascidos nos 5 anos anteriores ,o que imagino não deva ter sido fácil, nem havido tempo para momentos de atenção exclusiva, por isso quando conseguia estar sozinha, entretinha-me a brincar com as flores, no lindo jardim da casa onde morei até aos 18 anos.

Lembro-me bem de dar aulas às hortênsias azuis e violetas que viçosas olhavam para mim atentas e mudas, coisa que eu não entendia, pois era muito tagarela…

Filha de uma mãe excelente cuidadora, presente e dedicada dona de casa e de um pai provedor, trabalhador, sensato e culto, a minha vida era tranquila, organizada, descontraída e harmoniosa.

Mimos e Vazios

2º Setênio 7-14 anos

Começava a década de 70 com grandes transformações e revoluções a acontecer, no meu corpo e fora dele.

Era a companhia inseparável da minha mãe nas tarefas da casa, nas compras e cozinhados, nas costuras e trabalhos manuais …”esta miúda é uma mimada”- diziam os manos. E ainda bem, porque me deu um sólido e estruturante suporte para a vida.

Vivi uma revolução – a da liberdade – com 10 anos e tive que sair do colégio para o liceu público. Assustei-me, mas cresci muito. Infelizmente fui vítima de abuso sexual na garagem do meu avô, facto que criou um vazio na inocência do fim da infância e que envergonhada, escondi de todos até á idade adulta.

Também fiz ballet, dancei o primeiro slow, dei o primeiro beijo, diverti-me com amigos em dias de piscina e noites de jogos de cartas…memoráveis!

Apesar daquele vazio, tive uma infância muito feliz. Queria (e ainda quero) continuar a viver com a beleza de ver o mundo rosa, rosa suave, macio, encantador…

Descobertas e Maternidade

3º Setênio 14-21 anos

Estudei arte e decoração no IADE porque aos 16 anos só sabia que adorava as artes e as manualidades.

Aos 18 uma gravidez inesperada mas inteiramente abraçada por todos, interrompeu este curso e convidou-me a emigrar para um Rio de Janeiro, animado, verdejante e novinho em folha para mim. Casei apaixonada, dona de mim e imensamente confiante e entregue á nova vida.

Como eu “era o verbo ir” deixei para trás a minha família, a bucólica Cascais e fui destemida à aventura de conhecer outro continente, outra cultura, outro povo, outros amigos e uma infinidade de ritmos, expressões, frutos, sabores. Foi uma sorte. Mudanças e aventuras maravilhosas aconteceram com a chegada do meu primogênito aos 19 anos, já em terras brasileiras. E nunca mais estaria sozinha – era mãe. E o meu bebé era meigo, determinado, muito tranquilo e com certeza me iria deixar continuar a estudar…

Amor e Abismo

4º Setênio 21-28 anos

Morei / num país tropical / abençoado por Deus e bonito por natureza / mas que beleza – lá diz a canção de Jorge Ben e é mesmo…

E continuei a estudar como tanto queria, fiz exame de código no mítico Maracanã, tive aulas para o vestibular em Copacabana e finalmente entrei na renomada Universidade PUC-RJ em Design Industrial, grávida do segundo filho. Tinha 21 anos e sonhos, muitos.

Adorei o samba e o carnaval, o sol e o futebol, a descontração, a criatividade e a liberdade. Conheci lugares e pessoas incríveis, de uma beleza ímpar e luxuriante.

Agradeço as amizades imensamente acolhedoras e nutridoras que vivi, guardando-as eternamente vivas em meu coração. Muito grata querido Brasil. Quase no final deste ciclo ainda fomos todos acompanhar o marido/pai em seu mestrado na magnífica Sorbone “á Paris”, para depois conseguir acabar a minha tão almejada licenciatura, aos 28 anos.

Comecei logo a trabalhar em publicidade e package design a fazer manualmente estojos para joalheria, projecto que tinha sido o meu trabalho final de curso com nota máxima. Acabo o meu 4º setênio com o fim do meu casamento.

Regresso e Recomeço

5º Setênio 28-35 anos

Neste ciclo o chão fugiu debaixo dos pés.

Sem perceber percebendo, o meu casamento foi-se desmoronando porque afinal tínhamos crescido em direcções opostas e os nós, viraram laços que sem força, acabaram por se desfazer. Depois do sonho além-mar, veio a traição, o desamor, o divórcio, o abismo. As saudades da família e da minha terra que mordiam sempre, fizeram-me “voltar para os braços da minha mãe” como diz a canção, e regressei a Portugal.

Foi recomeçar do zero, de volta à minha cascais 10 anos depois, com dois filhos pela mão e a minha família nas costas a empurrar, para que conseguisse levantar-me, sacudir a poeira e desse a volta por cima. Depois de quase desesperar com os meus filhos e família agarrei-me á vida e reinventei-me.

Foi um período de grandes dores, mas também de expansão, liberdade. Devagarinho fui acreditando mais, usando os meus dons e talentos, as minhas capacidades empreendedoras e criei o meu negócio de estojos para jóias e objectos de luxo – Tumtum Design.

Magia e Alquimia

6º Setênio 35-42 anos

Apaixonei-me outra vez… pela vida, pelo campo, pelo mundo do vinho e por um talentoso enólogo franco-português.

O meu Atelier de estojos para jóias feitos á mão e com design único expandiu-se e conheceu os melhores joalheiros portugueses, embalou jóias contemporâneas da mais alta qualidade, pratas lindíssimas da tradicional joalheria portuguesa para oferecer a presidentes, imperadores, reis e até ao Papa. Foram tempos de grande criatividade, muito trabalho com merecido e reconhecido sucesso.

Agora já cheia de força e com sede de mais experiências, surgiu a possibilidade de ir reabilitar um monte algarvio da ruína e transforma-lo num Enoturismo, acolhedor e sustentável, com amendoeiras e figueiras, patos, galinhas e muitas vinhas. Voltei a casar e fui viver para o Algarve – Lagos.

Os dias ficaram cheios de novos desafios, na natureza, ao ritmo das estações a reconstruir a casa com traça algarvia para receber hospedes, cuidar da horta, das vinhas e das uvas para fazer vinhos com pisa a pé, de castas antigas e no algarve, fomos ambiciosos.  

Fui imensas em uma: decoradora, pedreira, pintora, estalajadeira, agricultora, viticultora, hortelã e muito, muito mais. Trabalhei de sol a sol como se não houvesse amanhã, com enorme investimento humano e financeiro. Foi desafiante e imensamente gratificante.

O branco da esteva, amarelo dourado champagne, vermelhos rubi e rosas intensos, entraram na minha vida…

Dedicação e Entusiasmo

7º Setênio 42-49 anos

Foi um ciclo mega, super, extra, extraordinário.

Depois dos meus filhos já adultos terem aberto asas e voado, perseguimos também o desejo de termos os nossos, mas uma gravidez ectópica quase me matou. Ainda tentámos 2 FIV´s, imensamente dolorosas e sem sucesso. Desânimo e dor. Decidimos então entrar numa longa lista de espera de casais inférteis que desejam ter uma família com filhos.

Um par de anos depois, fomos abençoados com duas crianças maravilhosas. e Tudo ficou mais que perfeito, colorido, interessante, brilhante!

Encantei-me pelo fascinante mundo das sementes orgânicas, tornando-me expert na matéria, salvando milhares de espécies raras de vegetais e flores em vias de extinção. Descobri que as minhas mãos abençoadas, também tinham “green fingers”. Que gozo me deu aquela horta biológica, cheia de imensas e raras variedades de tomates, alfaces, curgetes, beringelas, abóboras, pimentos, pimentas e flores, muitas e coloridas flores.

Tudo era incrível, até um dos nossos vinhos, o Maria Selection 2007 (uma bonita homenagem que meu marido me fez), entrou na lista dos 50 Melhores Vinhos Portugueses. Celebrávamos a vida e nossas suadas conquistas – uma família amorosa num lugar transformado em paraíso na terra – com um belo copo de vinho na varanda, ao som dos grilos ou das cigarras.

Voltei a sentir a verdadeira abundância. Todas as cores e todas as flores existiam na minha vida.

Transformação e Delicadeza

8º Setênio 49-56 anos

Diz um ditado árabe “Quem planta tâmaras, não colhe tâmaras”.

Foi absolutamente brutal o que nos aconteceu em finais de 2012, logo na entrada no meu 8º setênio. O meu marido apaixonou-se pela nossa estagiária e tudo ruiu. Fui outra vez empurrada a deixar o lar doce lar e o lindo projecto ecológico e os trabalhos apaixonantes que me sustentavam. Foram anos de perdas dolorosas, porque agora nem os braços da minha mãe, nem do pai tinha para me ampararem. Entrei pelos 50 adentro aflita e fiquei derrotada por muitos e bons anos, para conseguir aceitar e render-me.

Decidi regressar á base – a minha Cascais – olhar para dentro, cuidar de mim com carinho. E reinventar-me! Again.

Como a vida é sábia e soberana, trouxe-me uma arte milenar – a da feltragem – que consiste em friccionar fibras de pura lã com água e sabão, criando um têxtil. Encantei-me e comecei a aprender o ofício fazendo flores e mais flores, em pura lã Merino, que me curam a alma e aquecem o coração.

Este último painel tem a pureza do branco, rosas reconfortantes e verdes esperança. É arrematado com os restos da lã dos tapetes de arraiolos que a minha talentosa mãe fazia.

E toda a mudança é para melhor porque afinal… está tudo certo!